domingo, 2 de fevereiro de 2020

Os 10 melhores filmes de guerra da história do cinema

Os 10 melhores filmes de guerra da história do cinema

Bom dia, Vietnã. O meu nome é Patton. O ano era 1917. Muito antes de me tornar um escritor de bulas, eu já montava cavalo de guerra e secava as lágrimas do sol. Nascido em 4 de julho, era eu quem cuidava dos canhões de Navarone, limpando com flanela e saliva a fuligem triste, pavorosa, da pólvora queimada. Sem que os outros percebessem, eu sabotava as armas, eu desalinhava as miras. O meu intento de paz era que as balas errassem o alvo. Além da linha vermelha, eu era um soldado universal, desmoralizado, ridicularizado pelo restante da tropa, só porque eu vivia dizendo que a vida é bela. Ora, durante a guerra, fomos heróis. Mesmo assim, não se diz uma coisa como essa nem para o melhor inimigo, nem para o último samurai. Era isso que bradavam os meus camaradas.

Eu tinha ficado com essas sentimentalidades desde que conheci o menino do pijama listrado e participei do resgate do soldado Ryan, que estava entre os doze condenados — santos ou soldados? — que tinham sido capturados por feras sem nação, certos bastardos inglórios que invadiram Dunkirk. Doutor Jivago e Doutor Fantástico eram homens justos, médicos-capelães que cuidavam dos feridos do meu destacamento. A certo ponto, eles diagnosticaram que eu já não tinha mais jeito, que eu não tinha nascido para matar, que eu não tinha ódio suficiente para ser um soldado. Guerreiros de verdade tinham que possuir corações de ferro para não vacilar na hora de apertar o gatilho.

Por isso, os apostólicos doutores instruíram que Lawrence da Arábia, o franco atirador que recebera uma medalha de platoon em Gallipoli, incluísse o meu nome na lista de Schindler, a fim de que eu fosse liberado do exército o mais rápido possível e retornasse para o império do sol. Enquanto isso, com fins de evitar dano maior à tropa, destacaram-me para zelar do túmulo dos vagalumes. Neurastênico, macambúzio, sorumbático, confrontado pela hora mais escura, sentado no guarda-corpo da ponte do rio Kwai — uma ponte longe demais — eu pescava ilusões e pensava em Ilsa Lund, a minha noiva. Escrevia para elas cartas de Iwo Jima. Meu coração estava tão miúdo que nem mesmo um sniper americano conseguiria alvejá-lo a uma distância de trinta jardas.

Apesar da covardia, da fraqueza moral e do excesso de poesia, eu cogitava deixar aquele círculo de fogo depois de assinado o armistício. Mas, como eu já expliquei, fui precocemente diagnosticado impróprio, incapaz para matar. Então, colocaram-me dentro de um trem e me mandaram de volta para casa. Ilsa Lund sabia que eu voltaria. Assim que desci na estação, fui direto para Casablanca, um restaurante que funcionava dentro do Hotel Ruanda. O pianista judeu tocava o mesmo repertório que eu ouvira antes de ter sido recrutado para lutar pela nação. Sentada na mesa de sempre, avistei a minha bela Ilsa Lund tomando Apocalipse Now, uma especialidade da casa preparada com gim, terebintina, Cuspe Sour e raspas-de-ferida. Era linda a minha gata. Até o último homem se apaixonaria por uma criatura como aquela. Nunca me esqueci das palavras confiantes que ela me disse, assim que soube do meu recrutamento: “Vá e veja, meu amor”.

Fui e vi, mas, não gostei do que vi. Glória feita de sangue era o tipo de coisa incabível na minha visão simplista de mundo. “Não há nada de novo no front, principessa.” Surpresa, ela levantou-se da cadeira, segurou a queda e se atracou em mim, como se eu fosse Pearl Harbor e, ela, uma fragata aliada. O patriota estava de volta. O gladiador tinha voltado, depois de penar horrores fugindo do inferno, vivendo um tempo de glória e de guerra ao terror. Nos braços do meu amor, senti uma paz interna que há tempos não sentia, um sentimento peculiar e genuíno, concebível apenas a um homem que está a um passo da eternidade.

Após votação que envolveu centenas de leitores da Revista Bula, foram elencados os dez melhores filmes de guerra da história do cinema. Eles estão listados em ordem aleatória. Como sempre acontece com qualquer lista, a polêmica estará garantida. Nada, contudo, que nos fará guerrear em defesa das preferências individuais. Viva a paz entre os homens. Viva o cinema mundial, uma arte que não nos permite esquecer das virtudes e das atrocidades perpetradas pelo ser humano ao longo da história. Boas sessões a todos. Fiquem em paz e que Elvis os acompanhe.

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Sobre livros, mofo e cartões de crédito

Sobre livros, mofo e cartões de crédito

Sou um tipo que compra livros. Não o digo com orgulho ou modéstia; é
apenas uma constatação, como se eu dissesse que pesco ou — tesconjuro! — jogo boliche.
E sei que jamais lerei o que venho acumulando durante anos: ainda que os genes
herdados indiquem uma possível longa vida, a fibrose pulmonar por causa da
poeira acumulada nesses tantos livros é algo com que morbidamente conto —
colecionai livros e um pulmão rígido como um militar da reserva não vos
faltará. Enfim: juntar o que não será lido pode ser estranho, mas me consolo
sabendo que há estropiados piores no mundo — Holbrook Jackson, no essencial
“The Anatomy of Bibliomania”, criminosamente não traduzido aqui no Berço
Esplêndido, pensava que colecionar livros seria uma mania “menos danosa do que
a sanidade dos sãos”, e eu jamais poderia discordar do meu chapa Hol.

Outro dia mencionei a faina desse tipo de mania:
espana-carrega-descarrega-espana. Um moto-contínuo de luta contra poeira,
traças e mofo. Contra a poeira, nada a se fazer além das constantes limpezas: o
cerrado em decomposição a traz sistematicamente por qualquer mínima abertura de
janelas. As traças são vencidas com técnicas variadas, inclusive com aqueles
despertadores antigos: o tique-taque ressoa nas estantes e assusta os
famigerados bichinhos. Já o mofo é um caso mais sério — deve-se descobrir a
causa da umidade, usar aqueles saquinhos com sílica para “secar” as estantes e
escovar os livros, levando-os ao sol e deixá-los ali, quarando como roupa
branca em beira de rio. O problema: Goiânia não tem visto muitos raios solares
neste janeiro tenebroso, donde a solução tem sido ensacar os livros mofados com
bicarbonato de sódio — dois ou três dias nessa dieta bastam para sarar os
danados. Eu disse: é uma faina, um “combate que os fracos abate” (sim, além de
os limpar, eventualmente eu também os leio…).

Mas me perdi, porque queria falar de outras coisas. A primeira: cartões
de crédito. Compro livros e o dito sistema de inteligência da operadora do
cartão desconfia dessa atividade e o bloqueia. Imagino o sistema
inteligentemente pensando e inteligentemente decidindo: “Livros? Não pode, não
pode”. O sistema é como o cara que dá esmola e diz “Não vai gastar com cachaça,
hein?”. O sistema quer me corrigir, o sistema é o meu personal Bibliófilos
Anônimos. O sistema…

Bem, telefono para a central, perco vinte ou trinta minutos e… o
cartão é bloqueado na compra seguinte. Quando clonaram o meu cartão e compraram
uma motocicleta no interior de São Paulo, o sistema não apitou. Passagem aérea
para as Maldivas: a inteligência do sistema seguiu apática. Um jogo caseiro de
boliche (tesconjuro!): nada. Pneus para jipe: o sistema atrasou-se como um estudante
que perde a prova do ENEM. O sistema, claro está, só não gosta de livros; o
sistema é como um secretário de cultura brasileiro, de qualquer cor ideológica:
“Livros? Não pode, não pode”.  Se eu
comprar lhamas, rinocerontes zarolhos, samburás, tubas, dioramas da Primeira
Guerra, espadas de samurai, casas de bambu desmontáveis, flautas de encantar
serpentes, tabuleiros Ouija e riquixás que já vêm com o seu próprio vietnamita,
a inteligência do sistema não desperta; basta, porém, adquirir um miserável panfleto
que o QI do tal sistema refulge glorioso e proibitivo. Tem solução? “Senhor, o
sistema de inteligência é para a sua segurança.” Sim, eu sei, obrigado, mas ele
bloqueia compras do mesmo produto e nas mesmas livrarias. “Senhor, o sistema
inteligente é automático e para a sua segurança.” Sim, eu sei, obrigado, mas
ele está atrapalhando a minha vida. “Senhor, permaneça na linha para dar nota a
este atendimento.” Quase berro um “Que se fERROR404”, mas me humilho perante o
sistema, tão inteligente, tão cheio de si e de certezas, muuuito diferente do
degas aqui, este ser que anda meio de banda por causa das dúvidas, eu mesmo,
“tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil” (sim, eu os
leio…).

O outro tema: livreiros são sádicos. Os livros chegam, vejo aqueles
pacotes esperados (“Quando o carteiro chegou/ e o meu nome gritou/ com uma
carta na mão…”) e o prazer do momento logo é estragado na tentativa de
destrinchar aquelas amarrações, mais fechadas do que corpo de carioca protegido
por São Jorge. Jamais, jamais recebi um livro envolto num único pacote; no
mínimo, são pacotes duplos, ambos invioláveis com metros de fita adesiva. E há
quem pratique requintes de crueldade: primeiro pacote, segundo pacote,
plástico-bolha, livro envolto em papelão ou jornal, fitas abundantes. Haverá um
lugar no Inferno de Dante para esses estraga-prazeres, tenho certeza.

Um capetinha no meu ombro esquerdo me diz para tocar fogo nesses livros
todos, matando ânsias, traças, mofos e, simbolicamente, livreiros sádicos e
sistemas de inteligência (inteligência!) de operadoras de cartão de crédito; o
anjo do ombro direito segura a minha mão, quase já buscando gasolina e
fósforos, e me assopra no ouvido a lembrança de que, afinal, esses livros são a
vida que construí, a vida de que gosto, a vida que não quero mudar, a vida
possível — a vida.

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Abstinência deveria ser uma pauta íntima, e não governamental

Abstinência deveria ser uma pauta íntima, e não governamental

Não é segredo que no Brasil o carnaval é o ópio do povo, o eterno “pão e
circo” ilusionista. Todos sabem. Ou pensam que sabem. Na verdade, ele está mais
para uma válvula de escape que permite a quem vive massacrado, tão humilhado em
seu dia a dia, se sentir — ou pelo menos, na melhor das hipóteses, tentar — igual
a qualquer outra pessoa. É um tempo para se divertir, conhecer pessoas, viajar
e esquecer um pouco os problemas cotidianos. E foi esse o período que nosso
governo escolheu para dar início a uma exótica campanha pela abstinência sexual,
numa história de dar inveja aos melhores enredos de escola de samba.

É bom explicar: não há críticas específicas à folia momesca neste texto,
pelo contrário. A valorização do carnaval se dá justamente no ponto exato de
intersecção com a necessidade da população de ter pelo menos um momento de
alegria por ano; de se dar ao luxo de poder ser quem quiser, quando bem
entender, nas ruas, com fantasias e amores livres. Às vezes, é preciso iludir o
cérebro e fazê-lo mudar de ambiente, mesmo que de forma maliciosa, para criar
um fluxo positivo que permita aguentar os encargos pesados que todo cidadão deste
país tão bem conhece e mal suporta. Viva o carnaval!

Por um lado, o timing do governo ao adotar uma medida supostamente nova
não poderia ser mais conveniente. O carnaval, espaço temporal propício a novas
relações, descobertas e paixões meteóricas, é indiscutivelmente um período
adequado para ações efetivas de combate a doenças sexualmente transmissíveis e à
gravidez prematura ou indesejada. Porém o que salta aos olhos é o objeto, e não
o objetivo.

A ideia da abstinência como método contraceptivo não é novidade. O
próprio governo aponta que países como os Estados Unidos e Uganda utilizam essa
política como forma de tentar adiar a iniciação sexual e de prevenir a gravidez
na adolescência. O cerne da questão está mesmo na falta de qualquer comprovação
científica que confirme a eficácia do método. Pelo contrário: estatísticas
norte-americanas demonstram sua total ineficiência como política pública.
Segundo elas, não há mudança perceptível na iniciação sexual dos jovens decorrente
da adoção dessa política, que tampouco afasta a gravidez precoce ou impede disseminação
de doenças sexualmente transmissíveis.

Na realidade, a questão da abstinência deveria ser uma pauta íntima, e não
governamental. Essa decisão deveria ser pessoal, ligada às escolhas de cada
indivíduo com base em seu livre-arbítrio consciente. Principalmente em se
tratando de jovens, apesar das boas intenções e do caráter nitidamente
protetivo da campanha, há evidências científicas quanto à ineficácia da
imposição. É mais do que óbvio que, justamente na fase da vida mais rica em
descobertas e curiosidades, não será uma campanha do governo que vai impedir humanos
com deficiência de cautela e excesso de hormônios de desbravar os meandros de
seu corpo e os dos alheios. É, no mínimo, uma inocente insensatez.

Na película “La Mala Educación”, classificada pelo próprio diretor Pedro
Almodóvar como um filme noir — porém com um forte caráter iconoclasta e de
denúncia —, é apresentado um exemplo de como é falha a tentativa de imposição
de preceitos morais e/ou religiosos, principalmente os de cunho sexual.  Nele, dois adolescentes vivem os amargores da
repressão sexual impositiva em um internato localizado em um país ditatorial.
Paradoxalmente, em um ambiente tão recluso, de dogmas católicos e regras rígidas,
houve espaço para promiscuidades abusivas por parte dos clérigos e uma proibida
paixão entre meninos. Nada pode ser mais esclarecedor e convidativo à reflexão.

Ao que parece, a medida do governo representa mais um vácuo de ideias
que uma ignorância a respeito da quase inexistência dos resultados esperados.
Em um país onde ainda existe um forte tabu quanto às questões sexuais, a
repressão deliberada da exploração do próprio corpo soa como desnecessária e
retrógrada. No fundo, a alegoria da moralidade acabará sendo mais uma vez motivo
de piada, por prescindir da precisão e da seriedade necessárias. Para um
governo, imiscuir-se na vida íntima dos cidadãos, ainda que menores de idade,
deveria se restringir a disponibilizar informações úteis e adequadas para que estes
possam entrar com segurança e responsabilidade no complexo mundo da libido. Não
é o caso.

Para quem viveu a era autoritária no Brasil só resta lembrar, com
saudades, da música de Caetano que decretava, contra tudo que o governo prezava
então, que era proibido proibir. A quem vive a juventude agora, só resta
esperar — ou, aos mais otimistas, esperançar — que as coisas mudem. E bom
carnaval.

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sábado, 1 de fevereiro de 2020

Os 10 melhores filmes que estreiam em fevereiro na Netflix

Os 10 melhores filmes que estreiam em fevereiro na Netflix

A Netflix já divulgou quais serão os lançamentos de fevereiro. Entre séries, documentários, filmes e animações, mais de 40 novos títulos chegam ao serviço de streaming ao longo do mês. E, para ajudar os cinéfilos de plantão, a Revista Bula reuniu em uma lista dez longas imperdíveis que serão liberados em fevereiro. Entre eles, estão títulos originais da plataforma, como o suspense psicológico “Entre Realidades” (2020), de Jeff Baena; e alguns filmes clássicos e conhecidos, como “Mãos Talentosas: A história de Ben Carson” (2009), dirigido por Thomas Carter. Os longas estão organizados de acordo com o ano em que foram lançados.

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10 filmes da Netflix para acreditar em milagres

10 filmes da Netflix para acreditar em milagres

Segundo dizia Einstein, “Só há duas formas de viver a vida: a primeira é vivê-la como se os milagres não existissem. A segunda é vivê-la como se tudo fosse milagre”. Para os céticos, que vivem da primeira maneira, a Revista Bula reuniu dez filmes de temática religiosa que estão disponíveis na Netflix e relatam histórias de milagres. Com narrativas reais e inspiradoras, eles mostram a vida de pessoas que viveram momentos difíceis, mas superaram tudo com a ajuda da fé. Entre os escolhidos, destacam-se “Até o Último Homem” (2017), de Mel Gibson; e “Ponto de Decisão” (2009), dirigido por Bill Duke. Os títulos estão organizados de acordo com o ano de lançamento.

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