quarta-feira, 8 de abril de 2020

Das trincheiras da dor, brotou uma flor

São tempos difíceis. Medo e morte estão impregnados no ar e, como se não bastasse, são contagiosos. O mundo padece de sua busca desenfreada pela própria aniquilação, já que as promessas ilusórias de sobrevivência rapidamente se traduziram em desigualdades, opressões, violência, destruição.

Das trincheiras da dor, brotou uma flor

São tempos difíceis. Medo e morte estão impregnados no ar e, como se não bastasse, são contagiosos. O mundo padece de sua busca desenfreada pela própria aniquilação, já que as promessas ilusórias de sobrevivência rapidamente se traduziram em desigualdades, opressões, violência, destruição. Às custas de um micro-organismo ameaçador, a sociedade globalizada escancara suas mazelas e demarca ainda mais suas fronteiras.

O vírus inimigo, em cujo nome ostenta-se uma coroa, não briga por poder, nem por status, até porque seu tamanho é da ordem de nanômetros e sua visibilidade inacessível a olho nu. E justamente por não ter vocação alguma para a ostentação, ele expõe nossa mania de grandeza ao ridículo, desnudando nossa vulnerabilidade e nossa incapacidade de aceitar a mais letal de todas as ameaças: o ser (de)sumano.

Nessa batalha, à medida que o vírus ocupa os hospitais e as estatísticas de mortalidade, somos obrigados a desocupar as ruas, os espaços públicos; a diminuir o ritmo, o barulho, a poluição; a nos afastar para nos proteger de nós mesmos. Confinados e sem máscaras de proteção respiratória e social, demonstramos estar impregnados de uma dualidade cruel, que tanto cura quanto mata; tanto transcende quanto oprime; tanto aprende quanto limita.

Por um lado, os senhores da guerra, que nunca gostaram de crianças, mulheres, idosos e toda espécie de gente carente de dinheiro e poder, oferecem o sangue alheio em favor da economia, do mercado financeiro, dos lucros e da prescrição das vidas que não devem viver. Por outro, o mundo em pausa dá mostras dos benefícios da ausência humana:  bosques, rios e mares limpos; espaços urbanos tranquilos; carros estacionados; ruídos sísmicos, vibrações causadas na crosta terrestre, diminuídos.  E nessa batalha entre os gritos dos perversos e o silêncio dos que têm alma, a vida tem se transformado em questão de opinião.

Apesar de tudo, há juízo em meio a histeria; trégua diante da batalha. A esperança é capaz de atravessar as esquinas do mundo e se espalhar. Foi nessa travessia que ela veio encontrar as mãos habilidosas e solidárias de Bernarda Costa, uma mulher que, na grandeza dos seus 87 anos, decidiu dar sua contribuição no combate à pandemia, a partir da confecção e doação de máscaras de tecido. Seu universo de atuação era modesto, a pequena cidade de Santa Quitéria, no interior do Maranhão. Destinada a vizinhos e amigos, sua produção não tinha vaidade de larga escala. Todavia, o que faltava em proporção, sobrava em atitude, compromisso e inspiração. Sua iniciativa exemplar disseminou pela cidade e contagiou inúmeras voluntárias, que colaboraram com a costureira na produção de mais de 1000 máscaras de proteção.  

Bernarda é, sem dúvida, uma entusiasta da vida. Representa a esperança encarnada no corpo de uma mulher nordestina, que aprendeu a cultivar sua força e coragem, na aridez do solo e da sociedade excludente. Ela é como a flor do mandacaru, capaz de suportar as intempéries do tempo, as quais podemos denominar quarentena, e ser reserva de vida na natureza, ou de afeto em períodos de horror.

Há uma guerra em curso. Incerta e cruel como todas as outras. Mas há Bernardas e mandacarus para dissipar a descrença e trazer à tona a debilidade dos senhores espinhos e a potência da cura em flor, que se abre a um universo capaz de, solidariamente, se reinventar.

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